Acordar e acordar

E talvez eu não acordasse morta,
sem um suspiro resvalado.
Então, não temesse o dia
em que minhas coxas seríam roídas
e o líquido já podre ao qual se resumiriam,
insignificantes,
banhasse de chorume os bichos da terra,
que meus olhos fossem os primeiros a perder as carnes,
que eu sentisse o desfazer.
E um respiro de dor pela morte e pela vida.

Se eu não amanhecesse ainda.

Qualquer tempo seria impossível,
mesmo não poderia contá-lo.
Ou por ele não ter nada e também
todo ódio pela sucessão vazia dos fatos.

Mas esta cama é muito dura
e nela vivo a despertar, sentindo
a destruição crescer aos poucos
em cada osso das minhas costas.
E me levanto no presente, retomado pelo dia claro
e nuvens escassas, ventos frios,
preambulando pelo quarto, e pelos cômodos,
e pela rua, e pelo trabalho,
alguns passos no meio-fio,
como uma morta que se movimenta
e se arrasta
para tudo.

Incêndio

Maurício, meu marido, sempre foi um ansioso, daqueles inquietos que se preocupam com as horas quando atrasados mesmo sabendo não haver diferença entre olhar ou não olhar a hora, afinal ela vai sempre estar ali e avançar, enquanto os atrasados em vez de avançar vão parar para as horas e se atrasar ainda mais! Eu, por outro lado, possuo a calma de um jabuti sonolento, duma alma intransponível por qualquer estresse deste mundo.

Certo dia, o prédio em que morávamos começou a pegar fogo. O cheiro acre da fumaça e os gritos das pessoas e dos alarmes entravam pela janela, denotando o terror da situação. Eu aproveitava minha hora de leitura, sem muitas preocupações. Nisto, me vem o Maurício, no seu ritmo intenso, num clamor febrio e desesperado:

– Amor, temos de correr, o prédio está em chamas!

Eu, na elegância de quem tem os pés fincados no chão, dobrei meu jornal e o depositei sobre a mesa. Então, retruquei:

– Se acalme, meu bem. Olhe, aqui no prédio por acaso não há uma saída de incêndio?

– Claro que há. É por onde todos estão saindo! — ele respondeu — E por onde nós iremos também!

– Seguramente que não! — contestei, assertivamente — Ora, se a saída é de incêndio, pois é só deixar que uma hora ou outra o fogo se vai por ela e fica tudo resolvido!

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